"Meu melhor amigo morreu aos noventa e dois anos de idade. Quando fui visitá-lo no leito do hospital, numa luta entre a vida e a morte, eu lhe perguntei o que ele gostariade dizer. E com a voz fraca e trêmula, com um sorriso meigo me falou: “Eu queria viver mais”. Meus olhos se encheram de lágrimas e aproximei a minha face da sua testa, como se pedisse sua bênção.
Lembrei-me do dia em que estávamos num retiro em Campos do Jordão e conversávamos sobre a vida, a morte e a eternidade. Sentado à minha frente num banco antigo de madeira ancorado no lago, ele, com sua voz terna, contou-me uma história:
“Uma vez meu pai olhou para um passarinho estirado de lado contra o meio-fio, perto de nossa casa.
- Ele está morto, pai?- eu tinha seis anos e nem conseguia olhar a cena.
- Sim - ouvi-o dizer,de maneira triste e distante.
- Por que ele morreu?
- Por que tudo o que vive deve morrer.
- Tudo?
- Sim.
- Você também, pai? E a mamãe também?
- Sim.
- E eu?
- Sim. Mas pode serque seja depois de você viver uma vida longa e bonita.
Não pude entender. Fiz esforço para olhar para o pássaro.
- Tudo o que vive ficará como este pássaro? Por quê?
- Foi assim que Deu sfez o mundo.
- Por quê?
- Porque assim a vida será sempre preciosa. Alguma coisa que é para sempre nunca é preciosa”.
Saí daquele hospital como quem se despede para sempre. O mundo parecia ter parado. Tudo era silêncio. Foi ali que pela primeira vez na vida compreendi verdadeiramente o significado da frase que ele havia anotado à mão, alguns anos antes, e me dado como um presente: “Não morremos nunca quando ficamos eternizados no coração daqueles que amamos”.
Trecho extraido do livro: "A Vida é Feita de Escolhas" - Ed. Loyola
Dalcides Biscalquin
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